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O que fez ‘Ruptura’ se tornar minha série favorita?

O que fez 'Ruptura' se tornar minha série favorita?

Uma empresa divide a mente e as memórias dos colaboradores

Eu conheci ‘Ruptura’ a partir de comentários no Instagram. Depois que vi a primeira temporada, ela passou a ser a minha série favorita, ultrapassando ‘Dark’ (Precisamos aqui de uma pausa dramática).

Eu amo histórias de viagem no tempo. Então, para uma série que não tem esta abordagem (até agora, que eu saiba) ocupar o 1º lugar no meu ranking, é porque já está em outro nível. Ela se tornou a minha favorita, primeiro porque tem uma pegada retrofuturista, pela qual sou a-pai-xo-na-da. Depois, porque tudo é milimetricamente pensado. Tudo se encaixa. A dinâmica , os clichês corporativos, os impasses… Tudo me faz querer acompanhar cada cena. Eu amo tudo.

(Claro, que sempre tenho de ver as explicações de youtubers, porque reparar em cada detalhe e ler a legenda ainda é um trabalho complicado para mim.)

A série acompanha Mark Scout, que passou pelo processo de ruptura para trabalhar na Lumon. Isso  significa que ele fez um procedimento no cérebro que fez com que sua mente e suas memórias se dividissem.

Há portanto dois ‘seres’ dentro do corpo de um. Mark, quando entra na empresa para realizar suas funções diárias, assume o novo ‘ser’. Ele não se lembra de nada sobre sua vida fora do trabalho. E quando está fora dela, não se lembra de nada do seu ‘ser’ interno ou do que ele faz lá.

Vida versus trabalho

A alegoria é clara. A discussão sobre vida profissional e vida pessoal é antiga.  Quantas vezes já nos vimos em situações em que os nossos papéis se misturam…

Parece que  a Lumon quer pôr um fim de vez nesse debate.

Como seria se pudéssemos simplesmente separar a nossa vida do nosso trabalho? Estaríamos inteiramente naquele papel, sem distrações. Mas, será mesmo que esta é a fórmula perfeita, tanto para termos mais produtividade, quanto para vivermos menos estressados e aproveitarmos mais as nossas horas livres?

Uma vez ouvi uma reflexão exatamente sobre a mudança de papéis pela qual passamos diariamente durante o caminho para o trabalho.

A partir do momento em que começamos a nos arrumar, ainda dentro de casa, já estamos nos vestindo para a missão. O trajeto para o trabalho é transformador. Enquanto atravessamos as ruas, pegamos um transporte, ou conduzimos o carro, a nossa mente vai internalizando o nosso ‘personagem’ de profissional. Nós mudamos no caminho, mesmo sem perceber.

Quando voltamos é como se fosse o inverso. Vamos arrancando o ‘figurino’ para voltar a ser a mãe, o pai, a esposa, o marido, a filha, o filho, a dona de casa…

É por isso que quando as pessoas trabalham em home office, pode haver uma espécie de confusão mental. É como se os papéis estivessem misturados, interligados, confusos… Elas estão no trabalho, mas ao mesmo tempo podem se lembrar de colocar a roupa para lavar. No intervalo, vão estar com o filho. No almoço vão cozinhar e depois lavar a louça. O ambiente é a casa, mas a função é outra.

Quando não há esse ritual de passagem, os papéis ficam atrapalhados.

Já vi também pessoas evitarem fazer amizade, ou parecer muito amigas de alguém no trabalho, para não misturar as coisas.

Mas como seria possível? Mesmo que tenhamos uma postura diferente, que o ambiente nos molda, como seria possível aceitar uma fórmula em que fôssemos completamente separados nos nossos mais variados papéis?

Acredito que somos o que somos, trazemos um pouco de nós onde quer que estejamos. E essa mistura entre o particular e o profissional pode (e deve) ser algo natural, prazeroso e vantajoso.

Afinal, o trabalho não tem de ser dor. Se for, algo muito mais sério está errado.

A busca pelo prazer e a fuga da dor

Agora, na segunda temporada, já dá para perceber que a ruptura pode ir além de uma mera separação dos nossos ‘eus’ profissional e pessoal. Começa a expandir para a possibilidade de nos privar de momentos dolorosos ou desconfortáveis.

Tem de fazer uma viagem longa de avião? A Lumon traz a solução. Ative o seu interno que ele passará por este momento por você. Tem de passar por uma cirurgia? Lá estará o seu interno levando a anestesia e passando pelo pós-operatório. E você – ou poderíamos chamar do seu ‘eu’ principal – vai estar livre de traumas, dores e angústias. A busca pelo prazer e a fuga da dor nunca fez tanto sentido. Adeus psicólogos! Terapia, nunca mais!

No entanto, essa aplicação da ruptura levanta debates ainda mais profundos. A partir do momento em que um ‘ser’ é criado apenas para passar as situações mais desagradáveis, seria como se ele estivesse destinado apenas ao sofrimento, viveria em um mundo exclusivamente de tortura e só teria um propósito: sentir os piores sentimentos, dos mais simples aos mais dolorosos. Que triste. Repito, é muito triste mesmo.

Outra questão é se o que molda o ser humano são as experiências vividas, sejam elas boas ou ruins, como serão as pessoas que só vivem as melhores experiências? Somos construídos pelos momentos felizes, mas também pelos momentos que ultrapassamos medo, sentimos tristeza, dor, incerteza… Somos moldados muito pela capacidade de superar as adversidades e pela tentativa de nos tornarmos mais fortes. Que tipo de humanos seríamos se não sofrêssemos?

A série, no fim das contas, deve ter muito mais para nos colocar em debate e reflexão. O autor já disse que as coisas vão começar a acontecer mesmo na terceira temporada. (Como se já não tivéssemos ficado com ‘caramilholas’ suficientes na cabeça até aqui.)

Se pudéssemos separar os papéis e os sentimentos, quais seríamos ‘nós’?

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  • Maria de Lourdes Neves
    5 de Março, 2025 10:10 am

    Bom dia, querida sobrinha!
    Amei sua fala. Mesmo nascida num lar e família humilde, sempre busquei melhorar minhas buscas e minhas ideias. Aprendi a amar o bem, o bom e o belo! Concordo com você…Às vezes a gente encontra nosso pensar guardado dentro de outra pessoa e se essa pessoa está ligada a nós de alguma forma,, é porquê ” Pássaros da mesma plumagem andam juntos”
    Sr Bento.

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