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O efeito Ghiblificação

O efeito Ghiblificação

A morte ou o renascimento da arte?

A discussão sobre o conflito entre a Inteligência Artificial e a propriedade intelectual não é nova e está longe de acabar. É fato que os modelos estão ficando cada vez mais aguçados, com capacidade (aparentemente) ilimitada de criar uma infinidade de conteúdos, sejam eles textos ou imagens. Estamos ainda no começo.

O assunto ressurgiu depois que uma trend inundou as redes sociais: pessoas recriando imagens no estilo do Studio Ghibli, utilizando uma nova funcionalidade do ChatGPT. Os usuários ficaram encantados com a perfeição com que a IA conseguiu replicar o estilo do estúdio de animação japonês.

Mas, enquanto as GPUs da OpenAI colocam toda a lenha para dar conta de tamanha demanda, a arte de Hayao Miyazaki, cofundador do estúdio, parece se mostrar resistente a tal ideia.

O estilo Ghibli atrai adeptos justamente pela essência de sua concepção. E, por isso mesmo, essa essência parece afastar qualquer ideia de automatização de uma arte tão genuína.

O Studio Ghibli é conhecido por usar uma combinação de técnicas tradicionais e modernas de animação, o que faz com que seu estilo visual seja inconfundível e suas narrativas, imersivas. Cada quadro das animações é desenhado à mão, uma técnica clássica que o estúdio preserva, conferindo aos filmes uma sensação artesanal e emocional. A tecnologia é usada com moderação. O estúdio criou grandes sucessos, como ‘A Viagem de Chihiro’ e ‘Meu Amigo Totoro’.

IA versus Arte?

O uso de estilos próprios já vem sendo discutido desde a ascensão do Midjourney, responsável por criar ilustrações que imitam estilos de Picasso e Van Gogh, por exemplo. Mas agora, com a popularização da nova funcionalidade do ChatGPT, a preocupação só aumenta.

Neste caso específico, algumas pessoas resgataram um trecho de um documentário de 2016 em que Miyazaki criticava o uso da Inteligência Artificial nas animações durante a apresentação de um projeto.

Miyazaki, de 84 anos, conhecido por sua abordagem de desenho à mão e por suas histórias caprichosas, chegou a dizer que nunca desejaria incorporar a tecnologia que lhe tinha sido apresentada ao seu trabalho. No vídeo, ele afirma:

Sinto que estamos a chegar ao fim dos tempos. Nós, humanos, estamos a perder a fé em nós próprios.

O estúdio japonês ainda não se pronunciou sobre a nova febre.

Mas será mesmo que a trend foi um grande dano para o Studio Ghibli?

Com a novidade oferecida pelo ChatGPT, muitas pessoas que não conheciam o estúdio, ou tinham apenas uma referência remota das animações, tiveram a oportunidade de se aproximar mais da arte em uma nova descoberta. A possibilidade de criar uma imagem personalizada com os traços Ghibli encantou os usuários e tomou conta das redes sociais, expandindo assim o alcance dessa arte.

Eu mesma… Já ouvi falar na animação ‘A Viagem de Chihiro’, mas nunca assisti. Agora, já coloquei na minha lista de filmes para ver.

A busca pelo termo “Studio Ghibli” subiu exponencialmente no Google. Se analisarmos um gráfico de um ano, a tendência é clara. Mas se colocássemos uma linha do tempo com o início em 2004 (limite do Google Trends), a discrepância do interesse pela palavra-chave seria ainda mais gritante. Nunca antes, na história da plataforma de buscas, o termo teve tanta procura.

O efeito Ghiblificação

© Google Trends

Segundo o pesquisador Roberto Dias Duarte, em março deste ano “algo extraordinário aconteceu nas salas de cinema norte-americanas”.

Isso porque houve o relançamento de ‘Princess Mononoke’, do Studio Ghibli, em uma versão remasterizada em 4K e formato IMAX. A animação não só atraiu os espectadores antigos, mas conquistou uma nova geração.

No fim de semana de estreia, o filme arrecadou mais de 4 milhões de dólares, superando, em apenas alguns dias, todo o desempenho de sua exibição original na América do Norte em 1999, que havia sido de 2,37 milhões.

Coincidência ou não, a febre provocada pelo ChatGPT acabou impulsionando a animação e, consequentemente, gerando resultados monetários.

Parece que, ao contrário do que se pensa sobre a IA substituir os criadores originais, ela pode, na verdade, trazer mais atenção e valorizar artistas e obras que serviram de inspiração.

A estética Ghibli está sendo redescoberta por novos públicos, que, a partir das imagens geradas por IA, se interessam em assistir aos filmes, comprar produtos licenciados e apoiar o estúdio.

Estaríamos, então, vivendo um ciclo criativo?

De acordo com o pesquisador, obras clássicas podem ganhar novas vidas por meio de relançamentos estratégicos, aliados às empresas de tecnologia. Para ele, a IA pode funcionar como um amplificador cultural, uma nova ferramenta de divulgação. O público pode, inclusive, desenvolver uma apreciação mais profunda pela arte tradicional.

Gosto dessa abordagem. Pensar que ainda é possível encontrar um espaço para o tradicional e o moderno. Entender que a tecnologia não vem apenas para “roubar empregos”, mas para mudar (e impulsionar) a forma como nos relacionamos com aquilo que tem verdadeiro valor.

Como toda febre, a ‘Ghiblificação’ deve passar. Mas certamente, a cultura do Studio Ghibli e a arte única criada nos anos 1980 serão permanentes. Se a tecnologia está aqui para nos lembrar daquilo que é duradouro e valioso, que seja muito bem-vinda. E que haja sempre uma boa oportunidade de retribuir o trabalho árduo dos artistas que nos trouxeram até aqui.

Veja aqui o vídeo de Rafael Bernardes, que me clareou a mente sobre o assunto:

Foto da capa do texto: Cena de ‘A Viagem de Chihiro’, © Studio Ghibli

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